Papa Leão XIV faz apelo pela paz na Europa ao se despedir da França
O papa Leão XIV fez um apelo pela paz na Europa e advertiu, nesta segunda-feira (28), contra "a ilusão do rearmamento", ao final de uma viagem de quatro dias à França, marcada pela presença de multidões neste país laico.
A agenda do pontífice, de 71 anos, foi carregada: em Paris, ele criticou os vieses da IA e a "oferta de morte programada" com a eutanásia. Em Lourdes, prometeu às vítimas de abusos sexuais dentro da Igreja impedir novos casos.
A paz e a Europa protagonizaram a última etapa de sua viagem na cidade de Metz, em um contexto mutável entre a guerra na Ucrânia, o auge da extrema direita europeia e a imprevisibilidade do presidente americano, Donald Trump.
"Infelizmente, também na Europa, a guerra reapareceu nesta época: um novo 'massacre inútil' que a cada dia causa inúmeras vítimas civis", afirmou o papa americano-peruano, retomando uma expressão cunhada por Bento XVI.
"É preciso comprometer-se com um diálogo paciente, mostrar audácia na negociação e estarmos dispostos a sacrificar algumas posições pelo bem maior da paz", acrescentou Leão XIV, cujo pai desembarcou na Normandia durante a Segunda Guerra Mundial.
- "Mentira e engano" -
A escolha de Metz, que França e Alemanha disputaram do final do século XIX até a Segunda Guerra Mundial, não foi um acaso. Nesta região nasceu Robert Schuman (1886-1963), um dos chamados "pais fundadores" da União Europeia e que o Vaticano pretende beatificar.
Mas o projeto europeu, que nasceu dos escombros de uma Europa devastada, perdeu força nos últimos anos em consequência da crise política aberta com a chegada de migrantes, a saída do Reino Unido da UE e as divergências sobre a atitude que deve ser adotada em relação ao presidente russo, Vladimir Putin.
"Hoje em dia, as relações humanas e entre os Estados tornam-se cada vez mais bárbaras", ressaltou o pontífice, pedindo que a Europa ponha fim à "espiral" de "mentira e engano", em uma crítica velada a políticos populistas como o presidente de seu país natal, Donald Trump.
Após reafirmar seu apoio ao "direito internacional e o multilateralismo", o papa pediu, ainda, para "integrar" os migrantes e alertou contra "a ilusão do rearmamento", enquanto os países europeus aumentam seus gastos militares frente a uma Rússia cada vez mais desafiadora.
No Centro de Congressos Robert Schuman, o presidente francês, Emmanuel Macron, também pediu para recuperar a "coragem de [os] pais fundadores" da UE e não ceder ao "retorno dos nacionalismos", quando vários países-chave, como a França, celebram eleições em 2027 com partidos de extrema direita no auge.
Embora a Presidência francesa tenha informado que os mandatários dos 27 membros da UE e encarregados das instituições comunitárias foram convidados, apenas os dirigentes do vizinho Luxemburgo e a presidente da região fronteiriça alemã de Sarre, Anke Rehlinger, estiveram presentes.
- Carta venezuelana -
"A paz, a ajuda mútua, tudo o que ele desejou, todo mundo quer. Só faz falta que os dirigentes sigam seu exemplo. Deveria ir ver Trump, Putin!", exclamou Bernard Adam, de 70 anos, enquanto aguardava o papa passar no papamóvel.
Três venezuelanas residentes na França e membros da "ConVzla", organização vinculada à prêmio Nobel da Paz e líder opositora María Corina Machado, participaram da missa com o objetivo de lhe entregar uma carta "para que reze e fale pelos presos da Venezuela", disse à AFP uma delas, Zeneida González, de 50 anos.
Em novembro, o sucessor de Francisco viajará para Uruguai, Argentina e Peru, onde foi bispo.
Leão XIV visitou a França curioso para saber os motivos do aumento dos batismos entre jovens e adultos, apesar da redução da prática religiosa em geral, e tendo levado às ruas deste país laico mais de 1,3 milhão de fiéis, segundo o Vaticano.
E levou um pedido à Virgem de Lourdes, a sete meses das eleições presidenciais, nas quais a candidata da extrema direita Marine Le Pen lidera nas pesquisas: "Consiga para a França governantes sábios e generosos (...), decididos a servir ao bem comum. Que conservem o país em paz no concerto das nações".
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H.Nicolini--LDdC