La Domenica Del Corriere - Participar de atos religiosos aumenta vínculo social e limiar da dor

Participar de atos religiosos aumenta vínculo social e limiar da dor
Participar de atos religiosos aumenta vínculo social e limiar da dor / foto: Stefano RELLANDINI - AFP/Arquivos

Participar de atos religiosos aumenta vínculo social e limiar da dor

Ir à missa alivia o corpo e o espírito? A prática de rituais religiosos libera substâncias químicas que fortalecem vínculos sociais e até aumentam o limiar de percepção da dor, segundo um estudo realizado no Brasil e no Reino Unido.

Tamanho do texto:

Pesquisas anteriores já haviam demonstrado que opioides produzidos naturalmente pelo organismo, como a betaendorfina, desempenham papel importante no apego social entre animais e nas relações humanas.

Essas "substâncias químicas do bem-estar" são liberadas durante determinados comportamentos, contribuindo para fortalecer o sentimento de pertencimento, explica à AFP Valerie van Mulukom, coautora do estudo publicado na revista Proceedings of the Royal Society B.

Nos macacos, isso ocorre principalmente durante sessões de limpeza mútua. Em sociedades humanas numerosas, porém, as interações individuais não bastam para criar laços entre centenas ou milhares de pessoas.

Segundo uma teoria do biólogo evolutivo britânico Robin Dunbar, "desenvolvemos certos comportamentos que nos permitem produzir as mesmas substâncias químicas que nas interações cara a cara, mas em uma escala muito maior", afirma Van Mulukom.

"Esses comportamentos incluem mover-se de forma sincronizada, cantar juntos, fazer música juntos ou saber que compartilhamos as mesmas crenças", acrescenta a pesquisadora.

Para testar essa hipótese, pesquisadores acompanharam 24 estudos de campo com fiéis no Reino Unido e no Brasil.

"Os rituais religiosos reúnem todos esses comportamentos. Quando se assiste a uma missa, por exemplo, todos se levantam ao mesmo tempo, rezam juntos, desejam paz uns aos outros, escutam e cantam juntos", explica.

- Conectados -

No Reino Unido, os participantes eram cristãos de diferentes denominações. No Brasil, praticavam a umbanda, religião afro-brasileira que combina espiritismo, danças e ritmos africanos com orações e imagens católicas.

Antes e depois das celebrações, responderam a questionários sobre o sentimento de pertencimento ao grupo.

Como medir diretamente a produção de opioides exigiria procedimentos invasivos, os pesquisadores recorreram ao limiar da dor como indicador indireto. Para isso, utilizaram um manguito de pressão no braço dos participantes até que eles relatassem sentir um "incômodo importante".

Após os rituais, os participantes apresentaram maior sensação de vínculo social, aumento do limiar da dor, crescimento do afeto positivo e redução do afeto negativo.

"Observamos que quanto mais conectadas com Deus as pessoas se sentiam durante o ritual, mais isso as ajudava a criar vínculos com os outros", afirma Van Mulukom.

Para a pesquisadora, além das atividades sincronizadas, "há algo nas crenças que essas pessoas integram à própria identidade que as une com mais força".

Ela compara esse efeito ao de participar de uma manifestação alinhada às próprias convicções: "Provavelmente me sentirei mais unido aos outros manifestantes do que em um show, embora neste último eu cante e me mova de forma muito mais sincronizada com os demais."

D.Gismondi--LDdC